Blog - Livre Arbítrio

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Pensamentos by Marcelo Passerini – 300 dias entre o céu e o mato.

28 de outubro de 2009

Um dos livros de que mais gosto é a narrativa em primeira pessoa de Amyr Klink, 100 dias entre o céu e o mar. Neste livro ele conta como cruzou o oceano Atlântico remando durante 100 dias em um bote extremamente equipado e planejado.

Eu tive uma experiência semelhante, passei 300 dias morando em uma casa no meio do mato, afastada da civilização e sem carro como meio de locomoção.

Não havia telefone, o celular mal pegava. O único elo com a civilização era uma televisão via satélite. Ficava dias sem falar com outro ser humano.

Nas primeiras semanas tudo foi muito estranho, muito silêncio e solidão, uma cartucheira, tão antiga que Borba Gato provavelmente a usou, era minha companhia. Falso conforto, cria da cidade grande desconfia até da sombra. A arma era tão velha, um tiro por vez, eu demorava quase um minuto para rearmá-la. Depois de duas semanas troquei-a por um velho taco de baseball e um cachorro barulhento, muito mais eficiente.

A solidão é algo que assusta, mas a mente humana é impressionante, adapta-se rapidamente. Pensar em voz alta, falar com o cachorro, discutir com a televisão fazia parte do meu dia-a-dia.

Não fui me enfiar no meio do mato a passeio, tinha um objetivo, restaurar e reformar uma casa.

Percebi que sem um planejamento até hoje estaria lixando alguma parte da casa, e ela não estaria pronta. Com isso em mente, a experiência solitária de Amyr se tornou meu guia. Instaurei um regime de horário militar, metas semanais a cumprir e parti para a reforma.

Uma das tarefas diárias que mais gostava era fazer um breve diário, como um pilot book marítimo. Separei duas passagens que particularmente gosto:

19 de setembro 2005

Mais uma semana vai começar. Faz mais de oito meses que eu estou nesta balada de monge tibetano. Vivendo e trabalhando sozinho, parcialmente longe da civilização. Interessante como a vida dá voltas, nem nas minhas mais loucas ideias poderia visualizar um trabalho como esse.

 De estudante de economia e empresário com um casamento fora de controle para um trabalhador braçal vivendo como um eremita com uma paciência oriental para trabalhos solitários. Bela biografia. Vai entender!!!

Muito trabalho pela frente. Começando pelo visual na frente da cozinha: o gramado tem falhas, umidades para resolver e degraus por fazer. Comecei pela pintura do guarda corpo do terraço.

Domingão à noite. Vou assistir ao Fantástico. Um pouco de informação não faz mal a ninguém. Entre um bife e outro vejo imagens do trânsito em São Paulo, morro de rir.

17 de novembro de 2005

Afasto-me cem metros da casa. Durante meia hora fiquei sentado, olhando e fumando, percebi que o trabalho estava quase pronto. Todas as madeiras internas e externas da casa foram restauradas. A hidráulica e elétrica funcionando. A casa pintada. Estava na hora de definir um limite para minha obsessão à perfeição.

Lembrei que precisava descongelar o frango para a janta e colocar a lenha para dentro.

Fiz um café.

Estava satisfeito.

Esta foi uma experiência fantástica. Um dia tomo coragem e escrevo um livro.

Primeira Vez

21 de setembro de 2009

O interior da aeronave vibra sem parar, finalmente o Electra começa a taxiar e manobra no fim da pista pronto para decolar. Os quatro motores turboélice Allison aceleram gerando 3.750 cavalo-força em cada. Colo no banco. Com o cinto de segurança afivelado e meu rosto colado na janelinha vejo aquele monstro de aço ganhar velocidade. Finalmente decola. Eu, garoto, vejo o aeroporto de Congonhas diminuir de tamanho. Emoção indescritível da ponte aérea Rio – São Paulo, é a primeira vez que ando de avião, nunca esqueci aquele momento.

Vinte e cinco anos depois, ainda lembro da poderosa injeção de adrenalina de experimentar algo pela primeira vez na vida. Não esqueço também quando li meu nome no jornal entre os aprovados no vestibular, meu primeiro estágio no segundo ano de faculdade, meu primeiro carro, a primeira namorada.

Emoções e lembranças poderosas que ficam gravadas em nossas memórias. A vida seria muito monótona sem estes momentos isolados. Há dias em que nem lembramos o que comemos no café da manhã, mas aquele gol que fizemos no final do campeonato no torneio do ginásio, inesquecível.

Com mais milhagem acumulada, estas passagens tendem a ser mais raras e espaçadas. Ficamos mais anestesiados pelo acúmulo de tempo. Mas precisamos delas.

Era uma manhã chuvosa de um dia perdido, dezenas de coisas para fazer e eu em um mau humor crescente. Tomei um café rápido, peguei minha pasta cheia de papéis e a chave do carro, a caminho da garagem um gari sorrindo e assoviando limpava a rua, virou-se para mim e disse um alegre bom dia! Nem minha cara de limão passado removeu o sorriso no rosto do sujeito. Resolvi parar e indaguei o rapaz a razão de toda aquela alegria. Ele disse: recebi um aumento, vou poder finalmente parcelar minha primeira televisão.

Disse um atrapalhado parabéns, desejei-lhe sorte e entrei no carro. Finalmente me dei conta, para o rapaz o Electra estava acelerando com seus milhares de cavalos de potência. Estava experimentando o resultado do novo, a adrenalina corria solta.

Verifiquei na agenda o que precisava fazer, peguei minha caneta e adicionei no final uma tarefa:

- Experimentar algo novo, correr algum risco, fazer algo diferente, ninguém merece terminar o dia com o “boa noite” do William Bonner.